ZÉLIA CARVALHO UMA VIDA CONTADA ENTRE A TERRA, A FÉ E O CUIDADO
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Atualizado: há 21 horas

A reunião com Zélia Carvalho começou antes da reunião.
Ela entrou na sala virtual com antecedência, como quem chega primeiro à própria casa para receber os amigos. Não havia pressa. Havia conversa, cumprimentos, pequenas lembranças e aquele jeito simples de quem entende que, antes de qualquer pauta, existe gente chegando.
Foi nesse clima que o Rotary Club de Copacabana se reuniu para ouvir a história da companheira, ex-presidente do Clube e atual presidente da Comissão de Projetos Humanitários. Não era uma palestra sobre currículo. Era uma conversa sobre vida. E vida, quando é contada por quem a viveu com atenção, quase sempre vem acompanhada de terra, fé, família, perda, trabalho e alguma coragem guardada no meio do caminho.
A fala voltou à origem. À terra da família, aos costumes locais, à vida rural marcada pela agricultura, pela criação de gado e por dificuldades que hoje parecem distantes, embora tenham atravessado a vida de muita gente até bem pouco tempo. A energia elétrica só chegou na década de 1990. Antes disso, o cotidiano obedecia a outro ritmo. A noite escurecia de verdade. O trabalho dependia da luz do dia, do corpo, da experiência dos mais velhos e da capacidade de fazer o necessário com o que havia.
A lembrança da terra veio também pelo trabalho no campo. Era preciso subir o morro, procurar a terra mais forte, encontrar o lugar certo. Havia boas águas, terra preta, lavoura, arroz e capim-gordura. Ao falar disso, a memória parecia voltar não apenas aos fatos, mas às cenas.
Ela descreveu o preparo do berço para plantar arroz como quem ainda guarda nas mãos a noção daquele cuidado. Depois, quando a plantação crescia e o vento passava, o campo se movia em ondas. Aqui no Rio, estamos acostumados ao mar de água. Na terra dela, havia outro mar: o das plantas. O arroz balançava, o capim-gordura florescia, ganhava um tom dourado, e tudo dançava com o vento.
A família era grande: oito irmãos, rotina intensa, simplicidade sem enfeite. Não havia conforto sobrando. Havia esforço, convivência e uma sabedoria prática que nasce quando a vida não oferece atalhos. Ao contar esse tempo, ela não romantizou a infância, nem a reduziu à dureza. Mostrou que, mesmo nos lugares difíceis, a alegria encontra seus modos de existir.
Um desses modos era a festa da padroeira, Nossa Senhora dos Remédios. Pela descrição, não era apenas uma festa religiosa. Era o grande acontecimento da comunidade. Um carnaval de fé, com encontro de família, devoção, +roupa escolhida com cuidado, mesa, conversa e reencontro. A fé não ficava distante, em silêncio solene. Ela se misturava à vida, à rua, aos parentes, aos vizinhos e à alegria possível.
São João também apareceu com força de paisagem. A natureza, as tradições religiosas, a família reunida e a convivência comunitária formavam um cenário de pertencimento. Talvez por isso suas memórias tenham o gosto de saudade boa.
Outro ponto bonito foi a presença das histórias dentro de casa. A literatura, os relatos dos pais, as narrativas ouvidas na infância. Em muitas famílias, a formação não vinha apenas pela escola ou pelos livros impressos. Vinha também pela palavra falada. Pais que contavam histórias ensinavam sem chamar de ensino. Davam aos filhos imaginação, repertório e atenção ao mundo. Uma criança que cresce ouvindo histórias, aprende cedo que cada pessoa carrega uma vida inteira por dentro.
A trajetória também passou por separações, perdas e recomeços. Entre os capítulos mais marcantes, está a presença do rotariano Alberto Sant’ana, associado de nosso Clube, que entrou em sua vida em 2014 e ocupou um lugar muito importante. Depois de sua perda, o Rotary ganhou outra dimensão. Tornou-se espaço de convivência, amizade e presença.
Não se trata de dizer que o Rotary substitui uma ausência. Certas perdas não se substituem. Mas há momentos em que uma pessoa precisa continuar a ouvir vozes conhecidas e de amigos que chamem pelo nome. Para ela, o Clube também passou a ser isso.
Quando falou de sua profissão de massoterapeuta, mostrou que o cuidado, em sua vida, não é palavra decorativa. É prática, técnica, limite e escuta.
Ela explicou que a massoterapia não se resume ao movimento das mãos. Há uma dimensão psicológica no atendimento. Cada pessoa chega com seu corpo, suas tensões, seus receios e seu modo de permitir ou não permitir aproximação. O profissional precisa saber tocar sem invadir. E então, criar confiança.
A palestra teve esse mérito: não separou a pessoa da ação. A menina da vida rural, a filha de uma família numerosa, a mulher que atravessou perdas, a profissional que aprendeu a cuidar com técnica e respeito, a companheira que encontrou no Rotary uma rede de amizade e a voluntária dedicada às crianças aparecem como partes de uma mesma história.
Nada ali foi montado para impressionar.
Ouvir Zélia Carvalho foi lembrar que, antes de cada projeto humanitário, existe uma estrada pessoal que nem sempre conhecemos. Às vezes, a força de servir começa muito antes do serviço. Começa na infância, na casa, na terra, nas histórias ouvidas, nas perdas atravessadas, nas mãos que aprenderam a cuidar e na decisão silenciosa de continuar fazendo alguma coisa por alguém.
Por – Patrícia Leal | Innovarum
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PARTICIPE VOCÊ TAMBÉM DESTE PROJETO
Durante sua palestra, Zélia Carvalho apresentou o projeto de empréstimo de órteses para crianças com pé torto congênito. A iniciativa ajuda famílias que não conseguem comprar o equipamento necessário para dar continuidade ao tratamento.
Tipo de projeto
Banco solidário de empréstimo de órteses infantis.
Beneficiados
Crianças com pé torto congênito em tratamento.
Necessidade
Evitar que o tratamento seja interrompido por falta de recursos para compra das órteses.
Como funciona
As órteses são emprestadas pelo período necessário e, quando possível, devolvidas para atender outra criança.
Como ajudar
Doações, divulgação, indicação de famílias atendidas e aproximação com parceiros.
Contato
















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