Banco Solidário de Órteses: continuidade do tratamento que transforma trajetórias

Atualizado: há 5 horas

O pé torto congênito é uma das deformidades ortopédicas presentes ao nascimento mais frequentes no mundo.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista eClinicalMedicine, com dados de mais de 44 milhões de nascimentos em 36 países, estimou uma prevalência global de 1,18 caso para cada mil nascimentos, o equivalente a aproximadamente 176 mil crianças nascidas por ano com a condição.
No Brasil, compreender a dimensão real do pé torto congênito ainda representa um desafio. O próprio Ministério da Saúde, em seu Guia de Cuidado Integral às Pessoas com Pé Torto Congênito Idiopático, aponta dificuldades relacionadas à subnotificação e à identificação adequada dos casos nos sistemas de informação. O documento destaca a necessidade de aprimorar diagnóstico, encaminhamento, tratamento e registro do PTC nos diferentes territórios brasileiros.
Esse dado é importante porque impede uma leitura simplista: não existe hoje uma série nacional anual capaz de representar, com precisão absoluta, todos os novos casos de pé torto congênito diagnosticados no país.
É possível, entretanto, fazer uma estimativa epidemiológica a partir do número de nascidos vivos e da prevalência internacional atualmente disponível.
Diagnóstico é apenas o começo
O pé torto congênito pode ser identificado ao nascimento e possui tratamento estabelecido.
O Método Ponseti tornou-se internacionalmente reconhecido como principal abordagem para o tratamento do pé torto congênito idiopático. Ele envolve manipulações progressivas, imobilizações seriadas, frequentemente tenotomia do tendão de Aquiles e, posteriormente, o uso da órtese.
A American Academy of Pediatrics descreve o Método Ponseti como o tratamento mais eficaz e amplamente aceito para crianças nascidas com pé torto congênito.
Mas existe uma diferença importante entre corrigir o pé e manter a correção obtida.
É justamente nessa segunda etapa que a órtese assume um papel central.
A botinha não corrige. Ela ajuda a manter o resultado alcançado.
O documento preliminar do Guia de Cuidado Integral às Pessoas com Pé Torto Congênito Idiopático, do Ministério da Saúde, classifica a órtese de abdução como ferramenta fundamental para a prevenção de recidivas e manutenção da correção obtida pelo Método Ponseti.
O guia explica que o equipamento é composto por duas botas ou sandálias abertas conectadas por uma barra e estabelece um protocolo prolongado de utilização, que pode acompanhar a criança durante anos.
Esse é um detalhe decisivo.
A criança cresce.
A numeração muda.
O equipamento precisa estar adequado.
A família precisa conseguir utilizá-lo corretamente.
E, para muitas famílias, existe ainda uma realidade econômica que se soma ao desafio médico.
O próprio guia do Ministério da Saúde reconhece que, diante de recidivas ou dificuldades na continuidade do tratamento, devem ser considerados fatores como acesso à órtese, estabilidade familiar, transporte e condições de moradia.
É exatamente nesse ponto que o Banco Solidário de Órteses encontra sua razão de existir.
Uma rede que começou a ser construída há anos
A ampliação do tratamento do pé torto congênito no Brasil é resultado da participação de médicos, Rotary Clubs e diferentes instituições que contribuíram para difundir o Método Ponseti, capacitar profissionais e estruturar redes de atendimento.
No Rio de Janeiro, essa rede passou a dialogar diretamente com equipes de ortopedia de hospitais públicos que acompanham crianças com pé torto congênito e encaminham famílias que necessitam do Banco.
A lógica do Banco Solidário é simples, mas extremamente eficiente.
Uma órtese é disponibilizada à criança que necessita do equipamento.
Quando o crescimento exige uma nova numeração e as condições do dispositivo permitem sua reutilização, a órtese pode retornar ao Banco.
Depois da avaliação e manutenção necessárias, ela volta a circular.
Isso significa que uma mesma aquisição pode produzir impacto mais de uma vez.
E significa também que o projeto precisa funcionar permanentemente.
É necessário repor tamanhos, substituir equipamentos desgastados, realizar manutenção e ampliar a disponibilidade conforme novas crianças são encaminhadas.
Mais de 180 crianças atendidas no Rio de Janeiro
Desde 2024, a atuação local vinculada ao Rotary Club de Copacabana já beneficiou mais de 180 crianças.
Os encaminhamentos partem de profissionais que tratam o pé torto congênito em hospitais públicos e alcançam famílias da capital, da Região Metropolitana e também de municípios mais distantes.
Em alguns casos, quando o deslocamento não é viável, o próprio serviço postal passa a fazer parte dessa rede, permitindo que órteses cheguem a crianças residentes em municípios distantes da cidade do Rio de Janeiro.
Essa abrangência territorial demonstra algo importante: muitas vezes, disponibilizar o equipamento não é suficiente.
É necessário construir condições para que ele chegue até a criança.
O tratamento também depende da logística da vida real
Uma família pode precisar da órtese e não ter recursos para o transporte.
Outra pode atravessar uma dificuldade financeira temporária.
Há quem viva longe da unidade onde foi atendido.
Há crianças que rapidamente mudam de tamanho.
Há equipamentos que precisam de manutenção.
Hoje, o custo médio informado pelo projeto é de aproximadamente R$ 700 por par de órteses, com cerca de R$ 150 anuais de manutenção.
Uma primeira meta: R$ 25 mil
Para ampliar o Banco Solidário de Órteses no Rio de Janeiro, o Rotary Club de Copacabana iniciou uma campanha com meta inicial de R$ 25 mil.
Os recursos serão destinados prioritariamente à aquisição de novas órteses, reposição de tamanhos e manutenção do conjunto existente.
Mas a campanha foi concebida para ir além da arrecadação financeira.
Empresas podem apoiar com:
recursos financeiros;
transporte e logística e
manutenção
As possibilidades não financeiras são analisadas pela coordenação do projeto.
Empresas também podem fazer parte dessa rede
Empresas que participarem oficialmente da campanha poderão receber o Selo Empresa Apoiadora do Banco Solidário de Órteses 2026–2027, acompanhado de certificado de reconhecimento institucional do Rotary Club de Copacabana.
Reconhecer a colaboração institucional através do certificado e selo nos ajuda a ampliar a voz da rede que procura resolver um problema concreto: manter disponível o equipamento necessário para que crianças possam continuar uma etapa fundamental de seu tratamento.
Cuidar é também garantir continuidade
Os números ajudam a compreender a dimensão.
A medicina mostra que há tratamento.
Os profissionais de saúde fazem sua parte.
Mas entre a indicação médica e a continuidade do cuidado existe a realidade cotidiana de cada família.
É nesse intervalo que o Banco Solidário de Órteses atua.
E é por isso que a próxima etapa depende de uma rede ainda maior.
O Rotary Club de Copacabana convida pessoas, empresas, fornecedores e instituições a participarem da campanha de captação para a reposição e manutenção das órteses.
A meta desta primeira fase é R$ 25 mil.
Você pode contribuir financeiramente, oferecer uma parceria ou apresentar uma solução que ajude o Banco a alcançar mais crianças.
Conheça a campanha e descubra como participar
Fontes e referências
Ministério da Saúde — Guia de Cuidado Integral às Pessoas com Pé Torto Congênito Idiopático. Documento preliminar submetido à consulta pública em 2025 pela Secretaria de Atenção Especializada à Saúde.
Ministério da Saúde — Consulta Pública nº 3/2025. A consulta sobre o guia ocorreu entre 28 de outubro e 11 de novembro de 2025.
Smythe T. et al. — The global birth prevalence of clubfoot: a systematic review and meta-analysis. eClinicalMedicine, 2023. Prevalência global combinada: 1,18 caso por mil nascimentos.
American Academy of Pediatrics — Diagnosis and Treatment of Idiopathic Congenital Clubfoot. Pediatrics, 2022.
IBGE — Estatísticas do Registro Civil. Dados anuais de nascidos vivos por Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação.
Ministério da Saúde — Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc). Base nacional oficial utilizada para monitoramento de natalidade e anomalias congênitas.




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